MACUMBAS E CATIMBÓS

por Juliana Prado Godoy

de Iemanjá e Oxóssi, das águas e das matas

filha, devota e macumbeira.

Essa capa é um caminho, um processo a tantas mãos e tantos mundos, como Alessandra Leão diz sempre sobre o disco e da forma como ela me chamou para compor a arte dele. Desde sempre foi sobre camadas, sobre vozes se entrelaçando e se compondo para formar mensagens e imagens, tantas delas que nem sabíamos que viriam, tantas outras que foram assopradas em nossos ouvidos, mas não eram nossas, eram de outros lugares.

Veio dessa foto, de um lugar que descobrimos, tão perto de São Paulo, mas que nos levou para além. De encontrarmos a paleta de cores, que há quase um ano eu já havia mostrado, numa foto que Ale tirou de Dona Alaíde de Benedito Fumaça, em frente ao seu terreiro em Caruaru. Era uma casa pequena, a parede rosa, aquela textura e sensação de cal antigo, manchado, as marcas do tempo, os musgos subindo, o contraste que poderíamos alcançar com vegetação sobreposta a ela. Lembro de olhar pra foto e dizer “Está aqui, é o caminho!”. E foi mesmo. Ele apareceu pra gente, logo que voltamos para aquele lugar fazer as fotos, e dali veio tudo que criamos juntos naquele dia. Da junção de tantas pessoas incríveis e talentosas, num exercício de escuta para além do que éramos. Nesse caminho estávamos juntos: Marcelo Gandhi com quem faço a direção de arte, também junto de Alessandra Leão, Bia Varella que fez as fotos tão delicadas e precisas e, Gabriel Quintão, que registrou tudo e depois me auxiliou imensamente a finalizar esse processo.

Quando achamos que a capa estava resolvida e que seria essa a foto, Ale foi mostrá-la para seus guias, como fez com tudo, e nos foi indicado pontos que não havíamos notado, camadas e olhares que faltavam e que nos eram indispensáveis. Ficamos pensando no que fazer, se faríamos outra foto ou se poderíamos compor sobre ela e fomos sentindo que não poderíamos perder nem o que tinha sido aquele dia, com todos juntos criando a foto, muito menos aquele lugar, com aquela paleta e aquela imagética, que há tanto tempo eu já sabia que seria o fio condutor de toda parte visual desse disco e para além dele, desse mergulho e processo que viriam com os shows.

Disso comecei a colocar sobre a foto as plantas que senti deveriam estar presentes; alecrim, dracenas, taióbas, helicônias e tantas outras espécies que há tempos falam comigo e conforme fui intuindo no decorrer da montagem, deveriam estar ali, gerando as camadas, compondo aquele espaço, que era pra se tornar um lugar encantado que não está nesse plano, mas existe. Sobre esse plano encantado ainda vieram três plantas que precisavam estar ali: o Guiné, que desde que me aproximei da Umbanda me guia e protege; a samambaia, que num dia Ale a cuidando aqui em casa, fez a música “Abre a Mata, Oxóssi” que está no disco e a Lavanda, que está sempre presente pra limpar na delicadeza e trazer a cor natural dos elementos da natureza, como os guarás que pintam a mata de vermelho.

Desde sempre o processo da arte foi guiado por nada estar acima de nada, tudo estava no mesmo plano e envolvido entre si e por isso entendemos que não faria sentido ter algo ali escrito por cima, como um carimbo dizendo o nome do disco. Passei (passamos) - com Vania Medeiros, inclusive que faz o design gráfico do livro e me ajudou muito nesse momento - semanas nos virando nisso, fazendo testes e testes, escrevendo em folhas, e paredes até que senti que tinha que estar no muro, como se já estivesse lá quando chegamos e por isso não podia ser outra letra, tinha que ser a letra de Ale, que foi quem nos chamou. Quem reuniu essa gente toda de tantos planos, todos que vieram a partir dali pra estar nesse mundo outro, pra pular com ela no que seria esse processo tão profundo e lindo que desembocaria nesse disco que enfim nasce, Macumbas e Catimbós.