PEDRA DE SAL

por Arthur de Faria (músico)

Acompanho o trabalho solo da Alê (ao lado de seu marido / arranjador / guitarrista Caçapa) desde seus primeiríssimos passos. Sempre me encantou a voz crua em contraponto com, justamente, os intrincados contrapontos armados pelos arranjos - em cima de uma música que, ao mesmo tempo, é tão ligada à sua ancestralidade quanto fincada no século XXI, tempos pós-tudo, às vezes tão difíceis pra quem nasceu antes dos últimos 20 anos do século XX.

O que sempre seguiu me interessando na sua música, e me encanta, é que, como grande parte dos grandes artistas que propuseram novas sínteses, Alê (e Caçapa) tem buscado, ao mesmo tempo, aprofundar o foco e abrir o horizonte.

Parece fácil? É a coisa mais difícil desse mundo. Mas tá ali, escarrado a seco nesta primeira parte da trilogia de EPs “Pedra da Sal”. O foco se aprofunda na abertura - Yemanjá ­-, recriando o que Mário de Andrade registrou no Recife em 1938, levando o conceito de Alê (e Caçapa) a níveis inéditos de sonoridade, arranjo, interpretação, radicalizando o minimalismo e ainda introduzindo dissonâncias onde antes não havia.

E aí as quatro seguintes, Pedra de Sal, Mofo (ambas de Alessandra) e Devora o Lobo (Alessandra e Kiko Dinucci) apontam outras direções, mas tem um fio claro com todo o já feito. E nem podia ser diferente, pra um artista sensível: num momento em que a realidade brasileira está em algum lugar que não o canto “fofo” que parece ser comum a TODAS as cantoras com menos de 40 anos (e note: nada contra o “canto fofo” - tudo contra o TODAS), nada mais distante de uma postura “desencanada”, “leve” ou “descompromissada” do que esse novo trabalho de Alessandra. A raiva, o pasmo, o grito, tudo isso não havia no seu canto e na sua composição. Agora há.

Uma artista de seu tempo.
“Não Se Vive Impunemente as Delícias dos Extremos”, ostentava como título - em rosa! - um livro grosso na prateleira da biblioteca da casa dos meus pais, lá no alto, que eu mirava com a curiosidade imensa dos meus oito anos. Nunca abri pra ler. Nunca li. Mas êita frase que tem feito cada vez mais sentido...


por Martim Simões (cineasta)

Se para muitos de nós evoluir, no sentido de mudar e inovar, é um dos principais conflitos da vida, para artistas que lidam com linguagens tradicionais, essa tarefa é ainda mais árdua.

Funciona assim: se você inicia a sua trajetória artística lidando com algo que é entendido como folclore, em suas formas mais prevalentes, espera-se que permaneça assim, engessado nesse formato, para sempre. Do contrário, o artista cai na vala dos pecadores, daqueles que tiveram acesso à manifestação mais pura, plena e correta, mas que por usura, ignorância ou mero capricho resolveram se desviar daquilo que para muitos é sagrado.

Mesmo hoje, quando fusões e releituras preponderam, artistas que mudam de rota são frequentemente denunciados como traidores ou impostores. Ouvimos: “Fulano tinha talento, mas agora vai fazer um filme em Hollywood” ou “Sicrano era um grande músico, até começar a mexer com essa parafernália eletrônica”. Tais julgamentos, além de obtusos, escondem um simplismo que não cabe na vida dos verdadeiros artistas.

Há um jogo que se repete no fazer das artes. Uma gangorra entre o que revelar e o quanto esconder, entre o que é escolha e o que é pulsão. A isso se junta o desejo de criar uma ponte entre o que se tem para oferecer e a expectativa do público. Ou, de forma mais absurda, o que o artista imagina que os outros querem dele. E é fácil ficar refém do olhar alheio ou do medo de se perder ao tentar trilhar novos caminhos.

Mas arte implica em risco e é precisamente isso que Alessandra Leão demonstra em Pedra de Sal. Nesse EP, ela cristaliza anos de viagens, parcerias, reflexões e muita escuta. Depois de quase duas décadas lidando principalmente com as sonoridades tradicionais do nordeste, o desafio agora é acrescentar a música mais contemporânea de São Paulo ao seu repertório. Alguns ouvirão como rompimento, mas eu ouço aqui uma continuidade renovada. Mesmo que muito tenha mudado, existe nessa novidade, temas e modos de expressão que se coadunam com o restante da sua produção.

E o que soa dissonante retrata com perfeição o que deveria ser a missão de qualquer artista a cada novo trabalho: o ato de parir a si mesmo, na certeza de que o seu único compromisso é com a sua obra.