LÍNGUA

por Tulipa Ruiz (musicista)

Abri as varandas da casa e do peito e deixei muito ar entrar. Fiz um chá, silenciei dentro e fora, aromatizei os cômodos e voilà. Estava pronta para o play. Primeiro um disco, depois outro e depois mais outro. Três. Em círculo, tríade, ou trindade. E tudo inventado por Alessandra-leão. A cantautora percussionista pernambucopaulistanizada desenhou um percurso, chamou as forças e fez três discos fortes. Uma trilogia de paisagens sonoras, estados e lugares da alma. A-leão trilhou um percurso no sentido de musicar um caminho. Cutucou a pele dos sons e lambeu as palavras dos tambores. Mergulhou fundo e conheceu o chão da água. Berrou dentro e fora dela. Da caverna da caveira da concha da cachoeira.

Leão-Alessandra

Rugida pelo sagrado

Play

A trilogia começa com Pedra de Sal. Dissonante e bem da misturada. Cinco faixas, cinco pulos. Parcerias, trocas e presenças. Um novo estado: de trânsito. Ou transa. Depois da pedra, da transa, do transe, vem “Aço”, que é o segundo disco. Áspero. Metálico. Novos pulos, outros cinco, mas dessa vez para dentro. Trajeto de fora da carne para dentro do osso. É o durante, a vereda, a rota.

Vôo

“Língua” é o último capítulo do processo. É a palavra água antes da palavra sede. É o beijo antes do berro. É o balde que segura o que se vai dizer. Durante todo o processo Alessandra-leão esteve em bando. Em alcateia. E cada pessoa que chamou foi um universo. Uma soma. O primeiro beijo de “Língua” é “Passaros, Mulheres e Peixes”, parceria com Xico Sá e visitada por Ná Ozzeti. As duas saboreiam as palavras e se demoram nelas, como se estivessem tomando sol em cima de cada letra. “Joguei Minha Palavra N’água” é para o filho Caio, que a fez “ser o dobro desde cedo”.

Mais uma soma no som. A terceira faixa do EP dá nome ao disco e também vontade de lamber e celebrar sentimentos e significados. Na sequência, temos a balada antropofágica “Na Minha Boca” onde Kiko Dinucci (guitarra) e Thomas Harres (bateria) estão al dente. Pense num disco comestível. E recheado de amigos.

O epílogo de Língua é “Doutrina de Oxum”, um “crossfade” de uma toada tradicional do Tambor de Mina do Maranhão com layers de guitarras, sintetizador e um coro puxado por Ná Ozzeti, Juçara Marçal, Luisa Maita, Renata Amaral e Rafa Ella Nepomuceno. Os três discos foram produzidos pelo músico e arranjador Caçapa e contam com as colaborações musicais e astrais de Rafa Barreto, Mestre Nico, Guilherme Kastrup e Missionário José. Nos últimos minutos da quinta faixa “Caudaloso chega” e percebemos que os lugares mais profundos do rio de Alessandra dão pé a qualquer 4 pé cansado. É o momento final do disco. Ou para o recomeço dele.

E da gente.

PLAY AGAIN.



por Eveline Sin (poeta)

“língua” é materna.
percorre o corpo feito lâmina derretida.
está aqui antes de ter nascido.
carrega aço e pedra de sal
num ventre de águas nunca pisadas.
como mãe nascida da filha, tal e qual.
“língua” é uma mulher no céu da boca do mundo.
é beleza em cada vogal,
vocal, consonante, dissonante, consoante.
é verdade.
arde como bolhas de chão no pingo do meidia.
pinga
cachoeiras no canto dos olhos
e escorre pelas carnes um rio de calor e alma.
“língua” é o corpo todo leve numa dança de mar.
um vai e vem de desejo e hipnose.
“língua” é uma mulher desenhando a pele de outro.
outros. outras.
uma mulher na pele de outra.
e de outra.
ostra.
uma mulher é uma língua
da boca de um lobo.
de peixes. de pássaros.
uma língua de leão. Alessandra.


por Micheliny Verunschk (escritora)

Palavra que dança

Do que fala um livro? Todo livro fala do mundo. Não esse mundo apenas, esse ao qual nos habituamos. Todo livro fala do mundo que podemos inventar, ou daquele que é invisível, ou ainda daquele que vemos, mas não compreendemos.

Todo livro é uma chave para o que de outro modo seria inalcançável. Isso posto, de que fala o livro de Alessandra Leão? São três capítulos, três EPs, Pedra de Sal, Aço e Língua, que compõem um livro que conta de um mundo que dança, um mundo de vozes simultaneamente ancestrais e muito próximas e de redes e ligações entre corpo e alma.

A voz poderosa de Alessandra dá carne, tessitura e alinhava os fios dessa fabulação num trabalho original e surpreendente, intensamente feminino, e que remete ao poder das primeiras mães, as Iá Mi da cosmologia africana: um poder muitas vezes temido, mas ao mesmo tempo fecundo, pleno. E se por um lado seu trabalho se compõe como um livro, por outro se articula também como uma anatomia: sua música se contrai, se expande, abisma e se abisma, sangra, respira.

Em Língua, cinco faixas irrepreensíveis, nas quais se pode perceber o trabalho sensível e elegante de Alessandra, Rodrigo Caçapa, Luciana Lyra e Vânia Medeiros, parecem oferecer a síntese a essas teses: a do livro e a do corpo. Nele se narra a mulher, o amor, o encontro, o gozo. E também a força invisível que move essas constelações: a palavra. E se a palavra cai? Onde cair ela levanta e dança.