FIRMEI MEU PONTO

por Alessandra Leão, filha de Yemanjá e Ogum

macumbeira e catimbozeira

 Gosto - sempre gostei - dos caminhos de cada um para chegar ao sagrado. Gosto das suas infinitas possibilidades e nomes e rituais e músicas. Gosto como cada um muda a forma, a cor, o nome, o cheiro, do que lhe é sagrado. O sagrado no divino, o sagrado no outro, o sagrado no gesto, na comida, no movimento, no corpo, na festa, na rua, no silêncio e no som.

Nasci em Recife, Pernambuco, Nordeste do Brasil, numa família católica como religião, Kardecista por filosofia e prática. Estudei em colégios católicos, convivi com freiras e padres, fui batizada, fiz primeira comunhão, li trechos da Bíblia, comunguei, assisti a um número incontável de missas e gostava da “hora da música”. Lembro de, com 8 ou 9 anos, estar angustiada procurando um brinquedo muito querido e começar a cantar “Jesus está aqui, aleluia / Tão certo como o ar que eu respiro”. Seguir na busca cantando foi menos angustiante. Ouvia de vovó Bessinha trechos de livros psicografados, escritos por espíritos desencarnados através de médiuns encarnados. Ia com meus pais ao centro espírita, tomar passe e assistir as palestras, dormi um incontável número de vezes durante as reuniões e aprendi que isso, às vezes, também faz parte do trabalho. Ouvia histórias de visões, escutas e recados vindos de um mundo invisível para mim, mas que me faziam muito sentido. Vi uma tia avó, uma senhora branquinha, filha de inglês, incorporar caboclos em meio ao chá da tarde e dar passes quando era preciso.

Na adolescência, duvidei de tudo, me disse ateia, neguei Deus, os espíritos e o sagrado. Pouco depois, conheci a Zona da Mata Norte de Pernambuco e lá o Cavalo Marinho, Maracatu de Baque Solto, Coco, Ciranda… Festas que abrem um outro tempo no tempo, outros sagrados. O terreiro na rua, na praça, nas chão. Caboclo de Arubá, que Biu Alexandre coloca no Cavalo Marinho e dança inteiro sobre cacos de vidro para mostrar o corpo fechado.

Lembro da primeira sambada de maracatu que fui na vida e eu e Caçapa vimos um corpo na estrada, chegando em Chã de Camará, descobrimos que era de um caboclo que iria pro maracatu e foi morto num assalto. A decisão do Mestre Zé Duda, Biu Roque e dos demais membros do maracatu, foi de seguir tocando em homenagem ao amigo. Quem tinha que cuidar das coisas práticas foi, os outros cuidariam das coisas do espírito. E assim, cantamos, tocamos e dançamos para que sua passagem fosse mais leve. Ali, naquela noite, entendemos o sagrado da música e da arte diante da vida e da morte. Assim o fizemos anos depois, quando Biu Roque faleceu. Celebramos a existência do nosso amigo com música, dança e festa, que isso é sagrado. Assim desejo que os amigos façam para mim, quando chegar a minha hora.

Desde a minha chegada nesta parte do mundo, com 16 anos, tive e tenho a sensação de estar entre amigos, uma outra maneira de estar no mundo, uma complexidade de camadas e afetos, a dualidade, a beleza e a dureza das coisas, a festa e o olhar sempre ligado, um tempo que se dilata até que, num momento, vem a barra do dia. Novos sagrados diante de mim. O sagrado na música, na dança, na poesia, nos corpos que dançam, tocam, nas ruas, nos terreiros de terra, nas encruzilhadas. Novas questões e inquietações. Os espaços permitidos à mulher, ao negro, ao índio, aos pobres, a essa música, a essa arte. Um mundo de possibilidades e aprendizados que o tocar, o fazer verso, o cantar e o dançar juntos, coletivamente na rua nos oferece.

Nessa mesma época pela primeira vez vi-ouvi um ilu (tambor usado nos terreiros de Xangô e Jurema em Pernambuco), tocado por Maurício Badé, no Mestre Ambrósio e no Angaatanamu. Foi o tambor que me levou pros terreiros de Orixá. A música mais uma vez me conduziu ao sagrado. E eu que desde pequena, carnavalesca e forrozeira, já acreditava em corpos que dançam, conheci deuses e deusas que dançam, cantam, bebem, comem e fazem festa. Que se “encarnam” nos corpos dos médiuns e trabalham celebrando o movimento. Deuses que também se materializam em rios, mares, matas, vento, raio, trovão, lama, pedras… O mundo, a natureza toda como sagrado, eu, você, nós todos, gente, bichos, planta como parte integrante e não acima da natureza.

Frequentei festas públicas de terreiros de Candomblé, Jurema, Ifá e Umbanda durante anos, sobretudo as festas do Terreiro Xambá, em Olinda. Recebi orientações, recados, passes, me interessei ainda mais pelo ilu, aprendi a tocar, cantar e rezar.

Desde que comecei a tocar profissionalmente, na Comadre Fulozinha, o ilu tem sido meu instrumento guia, é com ele que componho muitas das minhas músicas; era ao som dele que meu filho dormia enquanto eu estudava; foi com ele que gravei praticamente todos os meus discos; é também a ele que agora, nesse Macumbas e Catimbós, eu agradeço e saúdo. O tambor é entidade que conduz os trabalhos espirituais, é saudado por cada um dos Orixás e guias que baixam nos terreiros. É no pé do tambor que dançam os Orixás. O tambor é de Ogum. Eu sou de Ogum.

Mudei de cidade, de Estado, de Região. Mudei um tanto de coisas dentro de mim. Não tinha mais a casa de Nice pra me consultar. Não tinha mais as festas da Xambá pra ir. Não tinha mais o mar perto. Me perdi de mim. Na busca, refiz alguns passos, me procurei no centro Kardecista, na Igreja de Santa Cecília, no terreiro de Ifá, em casas de Candomblé. Em cada lugar encontrava uma parte de mim, mas não juntava os pedaços.

Através de amigos queridos, cheguei ao Recanto Quiguiriçá, uma casa de Umbanda em Guarulhos (SP). Lá encontrei outros amigos e um tanto de gente desconhecida, mas que me recebeu com os braços e sorrisos abertos. Comecei a frequentar a Umbanda com a minha boa dose de cisma. Olhos e ouvidos abertos assim como aprendi a ser tocando na rua. Depois de alguns meses na casa, tentando desatar os nós das dúvidas, dos medos e das cismas, Pai Benedito me chama e me pede pra ir para o atabaque ou corimba. Nunca tinha tocado num ritual, essa função não é permitida às mulheres na imensa maioria das casas de matriz africana. Ali meu tambor ganhou outra função. Eu ganhei outra função. Sou ogã ou corimbeira. Aprendo um pouco a cada gira. Canto e toco para os guias e Orixás. Canto e toco para cada um deles com uma alegria que me transborda. Nas macumbas e nos catimbós, a música não é acessório ao ritual, é ela quem conduz os trabalhos espirituais, é parte fundamental. É assim também na minha vida.

No final de 2017, convidei Maurício Badé, Abuhl Jr., Douglas Germano, Vânia Medeiros e Juliana Godoy para uma sessão de improviso de música e artes visuais a partir das macumbas e catimbós. Decidi seguir em frente, transformei essa noite em show. Pedi autorização e orientação aos meus guias, pedi amparo aos meus pais de santo, Luiz Soliano e Marilda Soliano e ao povo do Quiguiriçá.

Esse disco é da ordem do tempo e do amor. Precisei de 40 anos para fazê-lo, precisei de um tanto de gente ao meu lado, de cada um que veio antes e dos que estão aqui agora. Há uma das orações mais bonitas que aprendi no Recanto Quiguiriçá e que rezamos, juntando nossas mãos, a cada abertura e encerramento de gira. Essa oração me apontou o caminho para o processo desse disco (e para a vida): “Nos reunimos para fazermos juntos aquilo que eu não posso fazer sozinho, para nos fortalecer, fazer e acreditar, em um mundo melhor para viver e amar”.


Voltei para as minhas terras. Fui a Pernambuco para conversar e ouvir mais sobre a Jurema Sagrada, aprendi com a generosidade e sabedoria de Nice Firmino, Dona Alaíde de Benedito Fumaça (em memória), Alexandre L´omi, Pai Cacau e Paulinho Carrapeta. Voltei na Xambá, de Pai Ivo de Oxum e Guitinho e de uma comunidade que sempre me acolheu com tanto carinho. Fiz essa jornada acompanhada de minha mãe Graça, que sempre me ensinou e ensina a beleza do amor e da fé, e com Laura Tamiana, que registrou a viagem com suas lentes e presença amorosa. Nesse período, pedi a vários amigos que cantassem seus pontos preferidos, e me chegaram as vozes de Alexandre Garnizé, Anelis Assumpção, Geraldo Barbosa, Daniel Leão, Maíca Soares, Luiz Paixão, Mané Roque e Felipe Cândido.

Para o disco, percussão e voz, eu, Badé e Abuhl juntamos nossos tambores, nossa amizade de longos anos, nosso amor e respeito, nossa trajetória pessoal dentro da religião e a profissional como músicos. Nos demos a liberdade de arranjar cada música nessa encruzilhada entre terreiro, palco e estúdio. Era pra ser com eles esse disco, aliás, ninguém chegou nesse processo em vão, era pra ser com cada um que está aqui. O nome de Caê Rolfsen me veio como que soprado ao ouvido e assim, agradecida pelo recado, assinamos juntos a produção musical. E como esse disco é também dedicado a quem veio antes e construiu o chão que pisamos hoje, a presença honrosa de Lia de Itamaracá, Mateus Aleluia, Sapopemba e do Terreiro Recanto Quiguiriçá celebra a sabedoria do tempo. O coro festivo com Lívia Mattos, Lenna Bahule, Karina Buhr, Isaar e Manu Maltez celebra o tempo de agora, com meus (ou nossos) contemporâneos.

Desde a primeira experiência do que viria a se tornar o Macumbas e Catimbós, naquela noite em 2017, Juliana Godoy tem sido uma parceira fundamental, com seu olhar atento e afiado, escuta aberta, amor e sensibilidade para encontrar os caminhos da beleza para muito além da cenografia e co-direção de arte; para achar a camada que faltava em cada lugar. É dela essa capa, construída a partir da foto produzida de maneira inesquecível por muitas mãos e amor, junto com Marcelo Gandhi (co-direção de arte), Bia Varella (fotografia) e Gabriel Quintão (vídeos e finalização da capa) e do projeto gráfico de Vânia Medeiros. É de cada um deles e de todos nós juntos as imagens e a forma desse livro.

Do momento que decidi gravar esse disco, inventei motivos para ter Juçara Marçal nele. Tentamos várias maneiras, até que, como uma flecha certeira, suas palavras chegaram para esse livro e me fizeram chorar de alegria. Luiz Antônio Simas, que tanto tenho lido e tanto conhece sobre as macumbas e os catimbós, também me honra com um texto certeiro e generoso.

A presença carinhosa de Luiz Soliano me enche de alegria, ele foi fundamental para avançar passo a passo e para retroceder quando preciso. O abraço de Marilda Soliano acende uma luz na caminhada. O encontro com meus irmãos do Quiguiriçá fortalece a minha existência. É uma honra seguir aprendendo a ser filha e irmã deles.

No Macumbas e Catimbós, não pretendi nem pretendo reproduzir uma gira ou um xirê, ele é uma celebração, uma oferenda. É um presente que ofereço aos Orixás, aos guias e entidades que trabalham, dançam, cantam, receitam, orientam e curam. Este disco é presente às forças que me guiam. Às que nos protegem é fortalecem individual e coletivamente há muito tempo nessas terras. Esse disco é feito para eles, mas é sobretudo feito com eles. Os tenho como parceiros e é uma honra imensa. A cada passo, pedi, ouvi, segui em frente, refiz o que senti que deveria ou o que me foi orientado.

Saravá!
Bato cabeça, peço benção e agradeço, à Deus; à Oxalá; a todos os Orixás, às forças e energias da natureza; ao Seu Marabô, ao Pai Benedito, à Vó Maria Conga, Pai Joaquim, Tia Maria de Guiné e a toda linha dos Pretos Velhos; ao Seu Boiadeiro; aos Exus e Pombo Giras; a Malunguinho; a Oxóssi e todos as Caboclas e Caboclos das matas; às Mestras e Mestres; às Princesas; aos Ciganos; aos Erês; aos Malandros; aos Baianos; à Marujada; ao Irmão Saul; ao Rei Julião; aos espíritos de Luz; aos Encantados; à Jurema Sagrada; ao Candomblé; ao Ifá; ao Kardecismo; à Umbanda. Bato cabeça e agradeço ao amor!

Que sejamos livres para acreditar no sagrado com a forma e nome que quisermos e para respeitar o sagrado do outro.

Salve suas forças!
Salve nossas forças juntos!

Axé