Retrato Substantivo Feminino (21-08-16 - para o livro de Laura Tamiana e Tatiana Devos)

Texto para o livro Retrato Substantivo Feminino, de Laura Tamiana e Tatiana Devos

21-08-16

Uma mulher abre a lente da câmera e deixa a luz registrar o que sempre esteve ali, mas nem sempre foi visto. O sol invade pelas frestas e portas e ocupa o espaço, já não podemos voltar ao breu, tudo está vivo, exposto, vibrante. Outra faz o mesmo, depois dela mais uma e outra e outras tantas...  Me vejo em cada uma delas e as vejo em  mim. 

Com os avanços que as discussões de gênero tem tido no mundo nos últimos anos e com a clareza de que as artes (principalmente as populares) sempre foram um poderoso instrumento de resistência, libertação e de empoderamento, Laura Tamiana e Tatiana Devos, propõe o retrato como substantivo feminino, como uma potente ferramenta de descoberta e construção coletiva entre mulheres, mas não apenas para mulheres. Retrato é um sopro, o registro de um tempo que não cabe em cronologias, pois principia antes e segue para além do tempo de cada um de nós. Aqui, cada vídeo/retrato é um mergulho profundo, um descortinar de si mesmo a partir do universo particular dessas tantas mulheres de gerações e origens distintas, unidas, sobretudo, pela arte e pelos afetos. 

 

A forma como as tradições culturais ainda são vistas e tratadas no Brasil diz muito do que somos como sociedade. Uma visão que, de maneira geral, parte de termos como: “folclórico”, “pitoresco”, “manifestação”, “regional”... que só interessaria a pesquisadores; que serve apenas como referência de uma certa “brasilidade publicitária”, mas nunca como escola criativa; e que precisa ser sempre “resgatado” e “salvo”. Uma arte sem sujeitos, sem autores, onde os artistas não são considerados como criadores, mas como meros “detentores do saber” e que, por isso, apenas reproduzem as tradições de suas comunidades, logo, todas as obras seriam imutáveis e de “domínio público”.  Lembremos que essas comunidades são, em sua grande maioria, formadas por pessoas negras, indígenas e mestiças, com baixa renda e pouca escolaridade e, de maneira recorrente, vistas como “simples” ou “coitadinhos” e que precisariam ser protegidas da complexidade do mundo para não serem “contaminadas” por ela.

Considerando a forma como o machismo e o patriarcalismo são distribuídos de maneira tão profunda e quase que democraticamente em nossa sociedade, onde mulheres sempre foram vistas e (des)tratadas como algo de menor valia, o papel delas dentro dessas tradições foram de dar suporte para que as “brincadeiras” aconteçam ou relegadas a funções coadjuvantes, onde tantas vezes foram (e ainda são) impedidas de desempenhar certas funções como liderar/mestrar, tocar, dançar, interpretar. Nesses retratos, podemos vê-las com toda complexidade do que é ser mulher, do que é ser artista e seus impulsos criativos, numa escola onde a arte é, antes de tudo, uma necessidade vital pro corpo e pra alma.

O encontro entre grupos tradicionais de regiões distintas do Brasil (e mesmo dentro de um mesmo estado ou região) sempre foi difícile um certo “privilégio” de pesquisadores. As cartas entre as mulheres do Cavalo Marinho (PE), do Batuque de Umbigada (SP) e do Reinado (MG), em que falam sobre si e enviam músicas, danças, reflexões, receitas, perguntas... é poderoso e emocionante. Conhecer outras formas de cantar, dançar, tocar e de viver é uma incrível ferramenta de transformação, pois, se perceber as diferenças nos deixa mais tolerantes; perceber as semelhanças, nos torna mais fortes.

No dia em que conseguirmos olhar para as nossas tradições como importantes escolas de arte, com uma imensa multiplicidade de gêneros e linguagens, que merecem ser compreendidos como tais e não sob rótulos limitantes e reducionistas como o “regional”, e que essa arte, assim como tudo, sempre se renova e se reinventa; quando reconhecermos os brincantes como artistas criativos e criadores; e quando tivermos mais mulheres protagonistas e em posição de liderança dentro dos grupos, como mestras, poetisas, instrumentistas, compositoras... estou certa de que seremos melhores como civilização.

 

Alessandra Leão