Não temos culpa! (28-03-14 - publicado no antigo blog)

28-03-2014 

Quando eu tinha entre 10 e 11 anos fui molestada diversas vezes por um homem próximo da família, ele com 18 ou 19 anos, na época. Dentro de casa, no meu quarto, onde deveria estar totalmente protegida. Sim, isso é muito mais comum do que se pode supor. Isso é muito mais comum do que se quer ver. Não sou a única, infelizmente. Também não fui a última.

Ao longo da vida ouvi e ouço, tantas vezes, de gente diferente, a maioria delas, inclusive, consideradas cultas, corretas e justas, frases como: “com essa roupa, claro que ela foi abusada, queria o que?” ou “ah, ela bem que provocou. não sabe se comportar?” ou ainda “ela bem que mereceu, quem mandou andar por aí desse jeito”. Sei que as pessoas que me disseram isso são contra o estupro e que acreditam e defendem punição severa pra esse crime hediondo. Mas essas frases estão tão impregnadas no inconsciente coletivo que a maioria simplesmente não se dá conta de que esses pensamentos e frases são a repetição do que aquele homem dizia no meu ouvido a cada noite que ia na minha cama e beijava e alisava o corpo de uma menina de 10 anos, enquanto despedaçava a minha alma, deixando cicatrizes profundas.

Hoje cedo li o resultado da pesquisa do IPEA onde “63% dos entrevistados disseram concordar com a ideia de que "casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre membros da família". Causou espanto entre os próprios pesquisadores o fato de que 65% disseram concordar com a frase "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas". Para autores, um número significativo de entrevistados parece considerar a violência contra a mulher como uma forma de correção. A vítima teria responsabilidade, seja por usar roupas provocantes, seja por não se comportarem "adequadamente."” (Estadão, 28/03/14). Ler esse tipo de notícia dá um nó nas entranhas e escuto novamente a voz do homem que dizia ao meu ouvido, a cada noite que ia abusar uma menina de 10 anos: “Eu só faço isso porque você provoca... você é muito bonita...”

Considerar que as vítimas são as culpadas por esse tipo de crime é o considerar que os homens são animais irracionais, machos selvagens que ficam descontrolados ao ver um par de coxas ou um decote ou apenas por se sentirem desafiados por mulheres que não se “comportam”. Considerar as vítimas como culpadas é ser conivente, é se colocar no lugar do criminoso e dar sequência e continuidade ao abuso, é não sair de cima, é ser o peso daquele homem em cima do corpo de uma menina de 10 anos.

Não acredito na supremacia de um gênero sobre o outro. Acredito realmente na igualdade, “utopia é aquilo que te faz continuar seguindo em frente” já disseram por aí. Sigo com a minha. Estou casada há quase 18 anos, sou mãe de um menino de 15, juntos, criamos um homem, não um macho. Precisei de cerca de 20 anos pra acreditar realmente que não fui culpada. Precisei de 24 anos pra falar publicamente disso. Terei uma vida inteira pra conviver com essa cicatriz, porque ela, infelizmente, faz parte da minha história, mas hoje, sei que não tive culpa. Isso é libertador. Hoje, sei que não temos culpa.



Alessandra Leão